A Partilha Como Testemunho de Amor Fraterno

A Partilha Como Testemunho de Amor Fraterno

Um dos sinais mais marcantes da Igreja nascente foi a partilha dos bens. Os textos de Atos dos Apóstolos destacam diversas vezes que os cristãos vendiam suas propriedades e colocavam tudo aos pés dos apóstolos, para que ninguém passasse necessidade (cf. At 4,34-35). Essa prática não era imposição ideológica nem mera solidariedade social, mas expressão concreta do amor evangélico. Para a comunidade cristã, não bastava rezar juntos ou proclamar Jesus como Senhor; era necessário viver a fé de forma encarnada, cuidando uns dos outros.

Essa partilha era fruto do amor fraterno. A fé em Jesus gerava nos corações um senso profundo de pertença: “somos irmãos”, “somos membros uns dos outros”. Essa fraternidade transcendia barreiras sociais, étnicas e econômicas. Escravos e livres, ricos e pobres, judeus e gentios partilhavam a mesma mesa, o mesmo pão e a mesma esperança. A Eucaristia era inseparável da caridade. Celebrar a Ceia do Senhor e negligenciar os pobres era visto como contradição intolerável (cf. 1Cor 11,17-34).

O caso de Ananias e Safira (At 5,1-11), que mentem ao Espírito Santo ao reter parte dos bens enquanto fingem doação total, revela o quanto a autenticidade da comunhão era levada a sério. Não se tratava de uma utopia idealista, mas de uma exigência evangélica: quem vive na luz deve agir com verdade e coerência.

Essa prática da partilha também tinha forte dimensão missionária. A comunidade que partilha é sinal profético num mundo marcado pela acumulação e pelo egoísmo. A generosidade dos cristãos impactava os pagãos, despertava admiração e levava muitos à conversão. A caridade não era propaganda, mas testemunho silencioso e eficaz. A comunhão de bens, quando vivida com liberdade e amor, tornava visível a presença do Ressuscitado no meio da comunidade.

Hoje, a recuperação dessa dimensão da partilha é urgente. Em tempos de consumismo, desigualdade e crise ecológica, a vida simples, a generosidade e a solidariedade cristã são atos proféticos. As comunidades paroquiais são chamadas a se tornarem verdadeiras famílias espirituais, onde ninguém se sinta só, abandonado ou excluído. A caridade organizada (como a pastoral social ou Cáritas) e a caridade espontânea (como gestos de ajuda mútua) devem brotar do mesmo coração movido pelo Espírito. Só assim a comunidade cristã será sal da terra e luz do mundo.

Atualidade das raízes bíblicas para a Igreja de hoje

As raízes bíblicas da comunidade cristã não pertencem apenas ao passado. Elas são fontes vivas para a Igreja de hoje. Diante dos desafios contemporâneos — secularização, indiferença religiosa, fragmentação social —, a redescoberta da comunidade como lugar de fé, acolhimento e missão é um caminho seguro de renovação eclesial. A Igreja primitiva, embora marcada por dificuldades, perseguições e limitações, viveu com intensidade o Evangelho e transformou o mundo.

As paróquias, os movimentos, as comunidades novas, as pequenas comunidades eclesiais são hoje chamados a refletir a beleza da vida fraterna, da escuta da Palavra, da oração comum e do serviço ao próximo. O Papa Francisco insistiu na necessidade de uma Igreja em saída, missionária, sinodal, que caminhe junto, que escute todos e que esteja próxima dos pobres. Essa visão é profundamente enraizada na experiência dos primeiros cristãos. A sinodalidade, tão valorizada nos nossos tempos, tem suas raízes em Atos dos Apóstolos, onde decisões eram tomadas em comum, à luz da escuta e da oração.

Portanto, voltar às raízes bíblicas não é regredir ao passado, mas buscar o frescor original da fé, como quem retorna à nascente para beber água pura. É descobrir que a casa, a comunidade e a missão continuam sendo pilares da vida cristã. Que a comunhão não é opcional, mas essência da Igreja. Que a partilha dos bens, do tempo e da vida é expressão do amor de Cristo em nós.

Colaboração:

Texto de: Pe. Sérgio José de Sousa, OSJ, parte do livro, A Paróquia: Raízes Bíblicas da Comunidade Cristã, com adaptações da Redação.

Paróquia – Santuário São José, Apucarana/PR.

Fotos: da Redação.

Pe. Sérgio José de Sousa, OSJ. Paróquia-Santuário São José – Apucarana/PR.

Pe. Valdecir Ferreira, Catedral Basílica Menor de Nossa Senhora de Lourdes, Apucarana/PR.

Pe. Marcos Antônio Teixeira, Paróquia São José, Cambira/PR.

Pe. Adeventino Alves de Oliveira, Paróquia São Sebastião, Faxinal/PR.

PASCOM – Paróquia São José, Cambira/PR.

PASCOM Diocesana – Diocese de Apucarana/PR.

Actus Fidei Foto.

Daniele Cravo, Cambira/PR.

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